domingo, 14 de novembro de 2010

Cravou em meu peito uma rosa.‏


"Cravou em meu peito uma rosa"
Autor:  Jonatan Rocha (jonatanjrn@hotmail.com)



Os antigos escreviam com penas; nos mosteiros, à luz dançante das chamas de uma quase extinta vela, escorriam para o papel as mais grandes e belas obras espirituais.

Não sob as mesmas condições, nem para tratar algo grande e belo- não enquanto obra, mas como experiência sensorial por mim vivida- escrevo  com auxílio da luz natural em teclas de uma máquina, criada pelo homem e que, por vezes ou melhor, por muitíssimas vezes, é utilizado para o mal e para a perdição das almas.

Com o perdão de quem quer que seja o leitor destas minhas palavras, talvez alguns poucos, mas, é que, infelizmente ou não, meu vocabulário já está um tanto viciado com as práticas diárias de um estudante das ciências jurídicas, por isso, eis que não me expressarei tal como gostaria.

O início de qualquer relato escrito é extremamente difícil, principalmente porque não se sabe o que fazer, com qual palavra iniciar ou qual será o fim de tudo isso.

Atormentado por estas barreiras fastidiosas, próprias dos estudantes, peço ao nosso fiel Paráclito o direcionamento do corpo e da mente: Então a minha alma exultará no Senhor, e se alegrará pelo seu auxílio (Sl. 34, 9).

Certo de que isto se fará, inicio, de fato, o causo que me enseja à escrita.

A fé, como meio de nos proporcionar semelhança com Deus, ainda que não na essência, alcançou-me sobremaneiramente. Ora, Deus quer nos dar vida em abundância e, exatamente porque não pode desdizer-se em sua bondade e misericórdia infinitas, deu-me a graça de unir a ele por meio do amor à Ele e às coisas santas, celestiais, duradouras, magníficas.

Neste contexto, buscando obter- não no sentido egoístico do termo- os dons abundantes de Deus, recolho-me em zelo e me preencho de um vazio que em si não cabe de gozo pelo Senhor, uma união  que diria ser sobrenatural, conforme ensina o Doutor Místico da amada Igreja, São João da Cruz: "Deus se comunica mais àquela alma que está mais adiantada no amor, isto é, àquela que tem sua vontade mais conforme à vontade de Deus. E a que a tem totalmente conforme e semelhante, está totalmente unida e transformada em Deus sobrenaturalmente.” Ocorre que isso somente ocorre por graça e vontade do Altíssimo, não por meus méritos (até porque nem sei se existe algum) e tampouco porque estou mais adiantado no amor.

De uma coisa tenho certeza: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc. 1, 46). Porque o Senhor olhou para a miséria e a fraqueza deste pobre servo e teve compaixão, como lhe é característico.

É certo que, muitas almas que andam ou andaram por este pobre exílio foram adiantadas no amor, posto que amaram em plenitude o Pleno, fazendo do Senhor o Amado, como é o caso de Santo Agostinho, São Francisco, São João da Cruz, Santa Terezinha-  a quem quero dar especial atenção, e muitíssimos outros que não tenho condições de citar, seja por desconhecimento, seja porque não há necessidade. Estes, em verdade, caminharam por esta terra “desfolhando amor pelo caminho” e, por isso, vivenciaram a transcendência dos sentidos.

É este desejo de união à Deus, por meio do puro amor, que me impulsiona a amá-lo, bem como à toda a sua criação.

Diante deste anelo, peço ao Pai de Misericórdia, que nos conceda a graça de união plena ao seu coração pulsante, pronto a nos dar amor: E para sempre amar.

Em oração sempre peço isto ao Senhor. Mesmo que à duras penas, mesmo que nesta terra haja choro e ranger de dentes, não permita que tal desgraça ocorra na eternidade. Meus pedidos não são movidos pelo medo do tormento eterno, que sinceramente o tenho, mas o que me motiva a perseverar na oração e no amor é, tão somente, a impossibilidade de viver sem aquele pelo qual suspira diariamente  minha alma.

Ora, como pode a planta manter-se viva sem que haja o Sol? Claro que, por meio da atual tecnologia, este problema é facilmente superado, contudo, tudo será artificial, fácil e perecível, não podendo jamais se igualar àquele vegetal desenvolvido  naturalmente, à luz do Sol.

Animado, pois, pelas dolorosas benesses que me são fornecidas na terra, aguardo às doçuras do Céu, das quais experimento sempre que é da vontade do Todo- Poderoso.

Estou certo de que Santa Terezinha tinha o mesmo desejo, uma vez que ao chamar-se rosa, aspira ardentemente desfolhar-se em amor ao Senhor infante que, trôpego em seus primeiros passos, tateava pelos caminhos. Eis uma versão do que dissera: Ao ver-vos, meu Jesus, deixar a mãe os braços e com seu terno auxílio tatear vacilando uns maus seguros passos, em nosso pobre exílio. Quisera desfolhar amor pelo caminho, a mais purpúrea rosa. Da que se fez gentil, pousar-se de mansinho sobre uma flor mimosa.”

Daí a alegria da rosa, a própria Tereza, ao dar seu brilho àquele que possui todo o luzimento.

Degustando estas palavras da humilde carmelita, ingressei no caminho de entendimento do infinito amor do Fiel Amado para com as almas, bem como do desejo oculto da alma de repousar para sempre no seio da Suprema Caridade.

Parecia-me atingido por uma flecha ou qualquer outro objeto capaz de perfurar um coração. Felizmente a sabedoria humana é parcial, e jamais poderei explicar o que realmente se deu, somente posso dizer que era como se minha alma inteira, todo o meu corpo se alegra pelo Senhor e, de igual modo desejasse deleitar nele.

Cravou-se em meu peito um rosa.

Quisera naquele momento desmanchar-me, desfalecer, saltar em direção a Jesus Amado. Meus sentidos foram como que transportados, esquecidos e derramados aos pés do Jesus infante que fala Teresinha. A ternura do Senhor possuiu-me e nele eu descansei, ainda que pudesse ver e ouvir tudo ao meu redor. Meu corpo quase não em respondia, de maneira semelhante aos momentos em que recebo Jesus Eucarístico, quando minhas forças esmorecem e tremo. Tremores que, por vezes, me envergonham e, por isso, inutilmente tento ocultá-los. Tal tremura é deveras salutar, contudo, pois sinto-me revigorado e propenso não somente ao anúncio do Evangelho, mas também ao amor incomensurável e constante do Deus Oculta sob as espécies e, naquele momento, em meu interior.

Experimentando estes “fenômenos” até então, para mim, inexistente ou duvidável, percebo a inegável ação do querido Senhor em minha vida, daí passo a repetir as palavras do gigante mestre da fé e da doutrina Santo Agostinho: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! (…) Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.”

Este grande santo nos revelava o contentamento da alma que exala o suave perfume do amabilíssimo Senhor, de modo que passo a perguntar-me: Como pude ficar tanto tempo sem saber das benesses concedidas amorosamente por Deus? Como pude deixar para tão tarde esta bela novidade antiga, que faz nova todas as coisas? A resposta para tais questionamentos não sei dizer, só sei que ainda vivo por graça do Fidelíssimo Amado.

Ao ser tocado pela beleza tão antiga e tão nova, fui queimado pelo seu vivo e caloroso coração, pelo qual percebi a graça do fogo que converte tudo em fogo. Entendi ou estou no passo para compreender, a vontade de Deus Pai, qual seja, fazer-nos deuses, por participação, posto que ele o é por essência, novamente tomo as palavras de São João da Cruz.

A benevolência de Deus nos faz assemelharmos a ele, não em essência uma vez que ele é o Inigualável, mas de estarmos tão íntimos aos seus desígnios que agimos conforme suas projeções: cessou o pranto, rasgou-se o véu do templo. Passam a existir o Todo Poderoso e a alma enamorada.  Cúmplices, puros e inflamados de amor e zelo.

Talvez seja isso a comunhão dos santos. A cumplicidade da alma assemelhada a Deus, por ele próprio; por sua própria graça e vontade. Maria Santíssima, mãe de Deus e nossa, com a absoluta certeza viveu todas estas coisas, afinal só assim poderia dizer: Fiat voluntas tua.”

Não sei se o Altíssimo me concederá a bênção de novamente despetalar-me em seu amor, de qualquer modo, já sou feliz porque ainda que este ser humano e pecador não merecesse, o próprio Cristo desejou que assim fosse. Por quê? Não sei. Se perguntei a Deus o motivo? Não e, provavelmente, nem hei de fazê-lo porque creio que ele, desta vez, não dirá, posto que tudo já foi  dito. Encho-me de zelo pelo Senhor, Deus dos Exércitos (Zelo Zelatus Pro Sum Domino Deo Exercituum).

O recebimento da “rosa espiritual”, segundo narrei, está intimamente relacionado a minha função de  evangelizador, meu dever de cristão, e o desejo do Sumo Bem que eu viva a santidade. Assim, meu coração tornou-se o solo em que está enraizada uma flor, logo, minha função é preservá-la em santidade, diligência e ardor da paz concedida do alto, sob pena de sufocá-la, retirando-lhe o brilho do qual Deus é merecedor.

Ocorre que, para que todas as coisas rumem ao caminho divino, eu, como semeador e agricultor devo me recordar, por meio da Cruz do Senhor, que somente ele deve ser a fonte de todo o bem e graça. Assim, devo viver emurchecido dos meus próprios prazeres, isto é, do meu querer humano. “Vaidade, tudo é vaidade”. Hei de morrer por vós, oh meu Jesus.

Escrevo estas coisas não para dizer-me santo, até porque seria uma mentira extremamente grande. Geralmente tenho uns devaneios e não costumo descrevê-los, mas não posso acorrentar a palavra de       Deus- sejam as Sagradas Escrituras ou o que ele diz ao ouvido. Oxalá, todas as criaturas humanas inalassem os perfumes celestiais e as almas comungassem o Cordeiro de Deus.

Minha sabedoria, além de ser pouca é parcial, logo, não posso esgotar os louvores ao Autor de todo o universo. Assim, volvo minha atenção às criaturas, inclusive a mim mesmo, para que elas buscam a fé e a santidade mui almejadas pelo Deus Trino. Ainda que nossa ciência em nada acresça à grandiosidade do Senhor, rezemos, louvemos, bendigamos e supliquemos a ele, para que ele nos cumule de fé, esperança e caridade; para que permaneçamos nele e ele em nós.

Um jardim de rosas brote nos corações deste humilde desterro, enquanto Maria Santíssima, medianeira de todas as graças, desfolhe em suas puras mãos a branca rosa que lhe cinge a fronte enviando-as aos seus queridos filhos.

A multidão de santos, juntamente com a Mãe, peça ao Senhor Onipotente toda sorte de bens espirituais aos homens que esperam e confiam na manifestação gloriosa do Senhor, quando, para sempre, amaremos plenamente a Plenitude de Amor.
  
Jonatan Rocha do Nascimento 

3 comentários:

Blog Amado Salvador. disse...

Agradeço ao meu amado amigo pela sua contribuição com ela linda mensagem.

Moderação disse...

Parabéns, Jonatan Rocha! Sábias palavras! Que vc continue sempre sendo esse vaso de bençãos nas mãos do oleiro, JESUS!

Jonatan Rocha disse...

Fico lisonjeado com as palavras meus amados irmãos. Deus os abençoe.

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